sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

inventário ligeiros das coisas que sei:

Torcer e contorcer pela precariedade do aprendiz não garante excelência do mestre, mas é prova de sua infinita infinda pequenez.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Frontispício, 1913

fuja-se anos a fio
rumo a cor original,
sem criar lios,
tais rendilhas
dos homens-cal

fuja-se edifício.
nunca o vi esverdecer
tanto amarelo,
e à mandíbula
de cada magrelo:
dê testa ao ofício e
empresta a toda chefia
um pouco do teu suicídio
de sua era de cada dia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

desdobramentos da química moderna das coisas:

Considerando que exista incontáveis mols. de vida, em cada partezinha da palavra,
outros tantos mols.de morte deverão existir, em seus meandros sinuosos e quinas certeiras, para que certo equilíbrio se mantenha.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Após a fala do comum caberá sempre a constatação, foi bonito, ?.
Diante da explanação do Próprio, ah! Revelador!, o obrigatório irredutível da expressão.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pequenino inventário do Sr. José

diminutas ornações efêmeras e acanhadas,
nalgumas amêndoas para anjinhos,
   e dois balandraus de procissão de Nosso Senhor dos Passos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pequeníssimo inventário do Sr. José


Um livrete de inventário iniciado pelas seguintes descrições:

    “Dous córos”
                  “[...] e huma casa chineza no meio para música”
“[...] própia de similhante objecto, a que concorreo innumerável povo”.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

No meio da ciranda

                                                                                  A minha avó Rosa,

Nem parece que Rosa fosse se lembrar como era sua infância nos idos da década de 1930. Ela que busca entendimento para onde todos foram, principia ligar todos os primeiros pontos com estes atuais. O que guardara pra si talvez fosse o modo como entendia lá, em sua primeira década, princípio dos anos 40, enquanto brincava com sua boneca. Elas não poderiam imaginar o que após a meia volta e depois volta e meia lhes aguardava. Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar! Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar.
E ali tanto faziam em darem-se as mãos e correr agitando os corpos, pulando e brincando, nas brincadeiras de ciranda. O Anel que tu me destes, era vidro e se quebrou... A boneca pétrea, lapidada em suas rendas e papéis crepons, e a menina, laçarote de fita no cabelo, vestidinho amarelo de babados e sapatilhas pretinhas. O amor que tu me tinhas, era pouco e se acabou... A menina, a boneca, a menina, a ciranda, a menina, a moça, a mulher, a mãe, a avó, a bisavó.
Nisto do tempo girar e girar o tempo a sua roda de ciranda fez-se esquecimento dos motivos suficientes para continuar a brincadeira. E mesmo que não mais pudesse topar entrar na roda, a canção nunca parara de tocar, e permitindo-lhe o pulsar de vida, no rubor da corrida, que lhe dava modos acalorados de felicidade e esperança, em que o jogo despropositado era o estudo para o cultivo da esperança e da felicidade nas novas gerações.
E hoje, após muitas décadas brincadas, já crescida, aparentemente séria e grave, e quando nem mais existe aquele vestidinho, e nem muito se fixa o laçarote nos brancos corredios, está Rosa, a mesma menina daqueles tempos, e que hoje assumiu a tarefa de ensinar o canto, ensaiar a dança, mediando o jogo entre aquele presente longínquo e este presente que são seus netos, seus bisnetos. Mas ela está diferente na tez que, a cada instante dos anos, se recriou em sulcos de abraçar demoradamente gotas d’água na superfície da pele. Em uma dessas carquilhas chia barulho que o girar da primeira ciranda causara, em convite à dona Rosa para que entrasse na roda e dissesse um verso bem bonito. Em uma dessas carquilhas está, a pousar-lhe na fronte de sábia anciã, duas gotinhas de água, que lavam: o tempo e a alma.

esta certeza dilacerante de que não há paz, não há justiça.
apenas este indubitável pesadelo, esta coisa infernal,
a que chamamos vida.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Arco

Antiquíssima coisa, da qual nunca cheguei a acompanhar

por mais que eu tossisse nomes que, em telegrama, íris me permitisse, tudo que pensei ter aprendido, meu amigo disse ter eu perdido por acreditar em quem não mais merece crédito. deuses, por deus, há muitos deles! e mal nunca houve que pudéssemos dar-lhes créditos... eu ia dizer-lhe que tudo o que faço é por não entender que se tudo é arco, porque deus também não pode sê-lo. antes engasgasse com caroço de angu que com palavras, e estivesse cor da pele que vermelho de granada. já ia minha morte, projetando rigidamente na íris dos meus olhos, tudo o que tornei rijo na memória: o que era lenho, num pisco, pedra se fez. e nada mais arqueava! olhava o horizonte de morros que se esticava como linhas... e agravei pra onde foram todas as cores? num gesto rápido, meu amigo esquadrou seu braço esquerdo na direção do arco da velha, e sugeriu-me mate de si aquela deusa e aqueles deuses que morreram junto com seus humanos, e eis seu arco de volta. toma-o e fira tudo que estiver fixado! eu que até aquele momento não cria em sugestões percebi que se não eram planas, se faziam planícies de vereda tão logo desejássemos arremessar arco dos outros aos abismos. assim, mal me refizesse, arrebatei da vida meu arco e silenciosamente feri o violino. matara, em tal procedimento, este meu amigo. dali em diante, o meu silêncio era muito mais, dele, matiz!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Mise-en-scène


I
[...]

II
nem muito se lembra mais como era tê-la infância, naquele início de século. Ela que agora, nestes tempos mais atuais, busca entendimento para onde vão todos. O que guarda pra si talvez fosse o modo como entendia , na primeira década, enquanto brincava sozinha sua boneca. E ali tanto faziam em darem-se as mãos a correr em agitar os corpos nas brincadeiras de ciranda. A boneca pétrea lapidada em suas rendas e papéis crepons e a menina, laçarote de fita no cabelo, vestidinho amarelo de babados e sapatilhas pretinhas. Nisto de girar do tempo a sua roda de ciranda, fez-se muito em perda dos motivos de se viver a vida. E hoje, quando nem mais existe aquele vestidinho, e nem muito se fixa o laço nos brancos corredios, está aquela menina. E está diferente da pele, que, a cada instante de anos, se recriava em sulcos demorados de escorrer água em superfície. Em uma dessas carquilhas, chia barulho que o girar da ciranda causou, a pousar-lhe na fronte duas gotinhas de água que lavam. O tempo e a alma.

III
[...]

IV
[...]
      



segunda-feira, 28 de julho de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Biblioteca

Seja,
deste ambiente,
nosso laboratório,
escritório,
nosso museu,

que daqui se faça
um arquivo de venturas,
um parque,
nosso melhor esconderijo,
ou mesmo um abrigo,
para dias como este.

que seja construído
um quarto
em nossa casa,
no instante em que se faz
uma casa
desse quarto de livros.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Terrorismo

A meu cão Johnny, infectado pela leishmaniose

vem o mosquito a
No consórcio espera comprar um carrinho chevrolé

E assim, ressentido com os anjos,
ante
Vem trazendo dentro da bolsa
Seu maior recado:
Uma carta-bomba!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

quarta-feira, 23 de abril de 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

Cada dificuldade se me apresenta como um desafio ao enquadro. Se enquadrar resulte ultrapassá-la, mais dificultosa, por agregar outro obstáculo, será. Se harmonia for desencaixilhar-me, mais impedimento, por reunir outro e outro embaraço, será. Há o receio de que ela me convença, há o temor de que eu não mais me reconheça. Que tal for a moldura, que mascara todas minhas desordens, que camufla inteiros cada um dos meus defeitos e que apaga completo todas minhas culpas, limite à felicidade, causa infeliz das minhas agruras, mantenho-me outside, recusando-me ser uma pessoa de bem, e me revoluciono: fora de mão, mantendo em suspenso ser bons adjetivos, a dispor um estar disposto a abusar, falível humano, da cabeça e coração.  

segunda-feira, 24 de março de 2014

Inventário ligeiro das coisas que sei:

sei que a algumas pessoas são permitidos vestir-se de tweed com proteção nos cotovelos metidos à besta; franzir lábios em boca godê e preencher o mundo com seus éismos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

sexta-feira, 7 de março de 2014

Inventário ligeiro das coisas que sei:

Sei que temo todas as pessoas que fazem dos seus bons êxitos sucessos por mérito individual e, de cada insucesso, fracassos causados pela mãe.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

ésio

magnífico
em lugar
fluxo
pródigo,
léxico do diabo
antipressa:
vida,
magnifica
vida.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

questão de profundidade

incrível perceber profundo desde este lugar - rasgo raso que dê pé - caso haja desejo levantar.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Pequeno dicionarinho:

Imagem – Coisa que, pertencente a todas as ordens, estão aos olhos iminente de ver, em percepção de imobilidade. Mas que à vista das ideias (ver Planos de percepção) movimentam-se incessantemente, a causar eventos turbulentos. Tais eventos podem se transformar em visões, mas sempre perdem (ou ganham) um quê de energia, e se trasmudam em outras coisas.

Pequeno dicionarinho:

VisãoCompleto de fluxo de energia em que resta partes de um somatório de um sistema de apreensão cujas perdas contribuem para completar o todo. Cf. Imagem

Inventário do Sr. José

hum menino jesus de paó

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Inventário ligeiro das coisas das quais tenho dúvidas:

parece não haver possibilidade de convocação 
(mesmo assim convoco o outro mundo) 
que explique este.

Pequeno dicionarinho:

Leitura - Perda virtual do ornato de um tecido pelo desenrolar do fio que o compõe, em que o crochê se desfaz subitamente pela ação de desfiar, controlada (às vezes) passo a passo, sendo desentrelaçados os fios em um novelo, pelo leitor-alfaiate, e cosidos num outro tecido, tão belo quanto for desejo, tão grandioso quanto for a habilidade.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Parte

toda vez que conceito
cai um troço,
um pedaço, ponta de órgão ao chão,
intestino grosso, fígado, pulmão. 
cada vez que arte, parte, 
pende um membro recém amputado
do tronco rugado de peles destroçadas,
líquido linfático, bilis, gordura amarelada.
e desse corpo mutilado
mal enjambrado, 
depois de cada pincelada,
colagem, penada, alma,
toda vez que o artista cria
revela sua instalaçãocriatura.
E faz saber seu projeto Frankenstein:
a sua idêntica imagem e semelhança. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A justiça do homem na justiça da Mãe D'água

Transcriação de conto de tradição oral.

Não adiantou nada aquele homem, que vivia uma vida modesta, de roçado, semeadura, colheita, buscar justiça, porque ela veio, depois de diversos acontecimentos, bem depois que tudo virou do avesso. Indo atrás do gatuno que, dia após dia, lhe estaria subtraindo umas frutas, a lavoura, tornou com uma esposa, a ladrona da mãe d'água, de predicados diferentes, e diferente no verbo, que deu a ele muita fartura, de um monte de trem, numa porção de bicho, e um tanto de agregado. Mas havia condição para fortuna, que era nunca esconjurar a gente dela, o povo de dentro d'água. Desse estado todo, aquele homem não conseguiu manter palavra, porque a esposa, depois que passou a descumprir das tarefas que ele acreditava ser dela, escutou ele praguejando contra suas pessoas, o povo d'água. Daí, ela lembrou da condição, juntou com raiva e liquidou o matrimônio, cantando assim para o patrimônio: Zão zão zão, Calunga, Olha o mungueledô, Calunga, minha gente toda, meus bicho todo, meus trem tudo, Calunga. Depois disso, tendo precipitado tudo para dentro d'água, a mulher fez justiça para aquele homem que desejava mantê-la por conhecê-la, descobrindo e prendendo quem era que lhe estaria roubando um punhadinho de fruta.

O desejo e a promessa

Transcriação de conto de tradição oral.

Um homem foi cumprir o desejo da mulher, que estava grávida com vontade de comer peixe, e acabou tendo duas coisas, o que de imediato desejava pelo o que deveras nunca desejaria. Não era a primeira vez que a mulher tinha desejo de gravidez, numa ela quis umas laranjas, logo na outra uma porção de goiaba, e, na terceira, quando quis peixe é que o homem se lascou. Caminhou até o fofo do terreno das minhocas, apanhou umas e seguiu rumo à beirada do rio. Preparou caniço, arremessou a linha dentro d'água e esperou, esperou. Não tendo êxito na fisgada, lhe deu uma dor de barriga danada de voltar, assim, sem nada, e ter que olhar a cara da mulher. Daí evacuou na água, até que Piragui apareceu dizendo: Ei, moço, por que é que fez cocô na minha água? Pensa que vai sair daqui, como quem diz obrigado, pra eu lhe dizer de nada? E o homem ficou deveras sem graça, e contou à Piragui o que é que tinha, pelo que não tinha. É que preciso de peixe, pra aplacar a fúria de fome da minha mulher grávida! Daí que a Piragui, que entendia das urgências e das necessidades, embalou um pacotinho de lambari, dizendo que quando a cria crescesse ele deveria trazê-la ali, para ficar com ela. Daí que o homem conseguiu obter aquilo que era desejo dele, em atender o desejo da esposa, e que o menino nasceu grandote, com saúde, cresceu e ficou forte, e os pais nunca cumpriram o desejo da Piragui. Descumprindo a promessa, o filho amanheceu mudo como um peixe fisgado, morto assim, estatelado. E até hoje, o pai, arrependido que só, corre ali, corre lá, veio aqui e vai acolá, avisando a toda gente que não é bom se descuidar das promessas que com a Piragui se faz.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Inventário do Sr. José:

vierão estas miudezas, q~ ja se achão nos tais:
  hum candieyro das trevas;
     toxeyro d'anjo;
   huma alcatifa de papagalho;
 massos de cignacolos pa' os livros;
                poucos taes encadernados de bezerro e carneiros.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Questão de descrença

Que não esqueçam que a cada recolher de justificativas negou que lhe apresentassem grandes motivos para o suicídio.

Questão de crença

Caso faça falta, que na minha biografia ponham que a cada despertar buscou motivos razoáveis para a vida que viveu.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Inventário ligeiro das coisas que sei:

sei que para se conhecer alguém não há que aprender, ou melhor, apreender seus enredos, mas ter em conta suas estratégias de estilo, concomitante à tarefa de não deixar escapar o que vai nas entrelinhas.

Inventário ligeiro das coisas que sei:

sei, agora sei, que a cobrança e exigência desmedidas nunca combinarão com a minhas experientes indolência e preguiça.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ó morte, não espero mais que ano a entender todos eles até que alguma luz se estenda desatado em nós

Grande inventário de sentenças:

Primeira questão do poeta, quando criança
o sol surgindo no mar fica molhado?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A alma da cor

Antiquíssimo texto,

Minha primeira cor foi o azul, e a história ainda não me havia compelido em seu discurso. Admirava o frescor daquela cor, e era oficial, assim deveriam ser todos os burrinhos e escovas de dentes. A segunda foi o verde, caia tão bem nas árvores que em todo verão fugiam para longe da janela do carro, e melhor cabia dentro dos olhos de mamãe. A terceira foram as fluorescentes, que eu punha um fo no meio, no intento de que brilhassem mais. A quarta se valia pela qualidade de não ter tom nem brilho nem nada, e era o papel de parede dos buracos negros. Com ela, pintei todas minhas mágoas e tudo que me contrariava.

Um dia um adulto me contou que todas as cores vêm de caixas separadas, nomeadas, e bem guardadas: cores primárias, neutras, frias, secundárias; cores quentes, complementares, fundamentais, terciárias... Saudoso tempo em que toda alma das coisas rompia a pele do objeto irradiando-se espectroesqueletoluz espaço afora que tão radiante me tornava.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Grande inventário de sentenças:

Infalibilidade:
"Pegou fogo a vida antiga e não voltava mais"

Pequeno dicionarinho

LiçãoParte meia de ignorância de algo ou alguém que é assimilado em meia-vida, sempre metade do pedaço sugerido, até que se mude de matéria ou de sujeito.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Inventário do Sr. José

Recordação de sentenças que o Sr. José lera:
“[...]e huma casa chineza no meio para música"

domingo, 13 de outubro de 2013

Inventário do Sr. José

Recordação de sentenças que Sr. José lera:
“[...] precedendo a tudo isso o trem necessário”
pela minha absurdeza expositivopseudocientífica quase enciclopédica, faço protesto! cerro minha boca, encarcero minha língua, paraliso esta mente pretensamente civilizada, e me saboto,
porque ando repleto de munição expositiva, científica, prestes a disparar, contra o diferente, a arma do fragmentário, do compartimentado, do descontextualizado, que sempre pretende ser um profundo tratado de uma evolução (a única possível), em que me encontro no topo, que, virtual altura, tanto maior o tombo verdadeiro.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Inventário do Sr. José

Recordação de sentenças que Sr. José lera:
“Assim pelo asseio, como pelo acerto e regularidade com que dançavão bem ensaiados, contradança, encherão de prazer aos expectadores”

Inventário do Sr. José

um manuscrito «cantochão»

Dos gêneros textuais:

Banheiros públicos masculinos:
estrutura própria para a produção de textos escritos que encontram, às vezes velados, às vezes não, a misoginia, a homofobia, a xenofobia, o preconceito racial que o sujeito tenta esconder. Toda e qualquer produção textual nestes espaços destina-se ao próprio emissor, como alívio da necessidade biológica de excreção, na necessidade de que se estime e se construa, por liberação do excremento que lhe é metonímia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Inventário do Sr. José

Recordação de sentenças que Sr. José lera:
Saltado três vezes com fogos de alegria”

Inventário do Sr. José

Recordação de sentenças que Sr. José lera:
Huma meza de 116 talheres com toda profusão, e delicadeza

Entrevista com artista do gorinha

E o que é...
vertente que verte
se verde, não tão verde
dinâmico movimento
do que é fundamental.
evidente-
mente.
enfim
querer-ia
que não
que-riria
que-rir-não-é-permitido
que-rir-não-é-chic
que-rir-não-é-lúdico
que-rir-não-é-trés.
da imagem que
forma-
ação
de um não-mundo
(caso imundo)
se cair cai no rol,
do esquecimento,
da minha ideia que foi,
e era
achei
esteticamente
não funcionou,
que estromboticamente
não funcionaria também.
quis usar o que não usei porque é um elemento
usei o que usar não quis porque é um elemento
que
reverborar já pode:
revejo o verbo
que revê o ar
e interage nos espaços,
e dia-log
desde-obra
num paralelismo parcelarresíduo...
...de um nada total.
nesta noite de tempestade
um hai no meu telhado luze
cai: trovestronda.

domingo, 6 de outubro de 2013

ei você. stop!
não se mexa. (click)
não se mexa. que amarrota o vestido.
não se mexa. vai estragar o penteado.
não se mexa. que pode te morder.
mão na cabeça,
não se mexa. que tô armado.
não se mexa. assim.
não se mexa. assado.
não se mexa. fique parado.
não se mexa. tanto.
não se mexa. desordenadamente.
não se mexa. que tô mandando. não se mexa!
e que mesmo parado anda-se, pois
montado a cavalo, em meneios rebolados
o planeta se mexe.
e saracoteando o bambolê,
a criança brinca de estar parado. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

no meio daquela pedra
havia uma cidade,
que cheia de graça e estilingue,
estilhaçou
a vidraça dos olhos deste menino

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

põe vistas no que eu digo
onde não ponho meu nariz,
ponho feliz,
o meu umbigo

terça-feira, 1 de outubro de 2013

eventualmente
todo castelo
que seja
eventualmente
feito
de areia
eventualmente
desaba no mar

acidente

este pequeno hai-
cai vertiginosamente
pra cova que cavei

A Antonia Cristina de Alencar Pires 

pentacordo
acordo cinco vezes.
a cada vez que
acordo
cinco cordas soam
ressonam sem sono
num arrourribombo
de sono oxidado.
a cada vez que me ergo
filigranas, deserdadas
da mãelinhadágua, solvem tal bólido
e dize-me sorve!
e a cada vez que olho,
na vagalumeância
de me deparar com a cor,
o fluxo da anti-cor
esfalfacela-me.
e na percorrência da vida,
à primeira vista das estrelas,
de vista desarmada
dou na vista,
e sem fazer vista
haja vistas o brilho que
me salta à vista,
sob meus pés
avisto o cume da montanha.

engano do capitão

Era uma vez capitão
que do alto da torre
comandava, inteiro,
o batalhão.

Dizia aprontem-se
que tá na hora,
de todos
irem-se embora,
pra ,
donde está a guerra.

E , dizia pra não fugirem
que soldado bom não teme,
o exército inimigo quem treme,
que deve à sua chegada.

E da guerra venceu todas,
o capitão tão celebrado,
sem saber que lá no fundo
pra que guerras, pra que pelejas,
se o que toma a vida nossa
é a angústia
de não saber quem possa,
tirar da vida,
não a guerra
nem a briga,
mas o desengano
de ser isso,
esta coisa,
e mais aquilo. 

inventário ligeiro das coisas que sei:

sei que algumas pessoas gostam de fazer a vida um pouco mais resistente do que ela é

sábado, 28 de setembro de 2013

Diáspora

em seu canto banto
quebranto
que o branco calou

da costela
à costa dos escravos
da costa
à costela
que o açoite calou

mina
cabinda
luanda
uidá
calabar
ibo
quiloa
zanzibar,

mina
cabinda
luanda
uidá
calabar
ibo
quiloa
zanzibar,

mina
cabinda
luanda
uidá
calabar
ibo
quiloa
zanzibar,

ressoa silêncio
vence tempo
rompe espaço
vento de lombo cheio
carga de som e
vai.

Orum,
Oxalá meu pai, aiê.
Orum,
Oxalá meu pai, aiê.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

evolução

se bem vê, debaixo desta nova pele, tecnológica, o homem continua positivista da cuca,
cultivando suas crenças medievais,
pondo fé nas tortas teorias científicas das raças,
praticando um anacrônico romantismo naive,
numa poética do parnaso!

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

sobre os movimentos:

                                Àqueles que geração após geração 
por detrás dos copos de cerveja como barricada,
usando as brasas como se fossem armas - 
mudam o mundo.

Em prol das grandes lutas, digo, tacanhas, digo, mesquinhas ou ambas:
A ausência ruidosa de interlocutores capazes
favorece
a presença silenciosa dos discursos dos críticos do rotineiro.

novidade no Inventário do Sr. José

encadernação em couro, provável diário,
nota-se uma inscrição manuscrita em que se diz:
«toda tinta gasta aqui são graves belíssimas tentativas de contar e descrever a realidade»

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

sobre os movimentos:

É fenômeno atual que: grande parte da ação
provenha tão-só
da incapacidade de reflexão!

fragmentos de uma entrevista do eu

[...] não haveria perdão para o adiar de cada homenagem que eu tivesse feito, a menos que se soubesse o que hoje se faz. [...] Momentos melhores, ocasiões mais oportunas, todas as chances de trazer a mensagem ou a intenção bem maior do que a homenagem, bem maior, quem sabe, do que o próprio objeto desta homenagem. [...] Às vezes vaidade minha, às vezes apenas um desejo proveniente da razão.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

sábado, 7 de setembro de 2013

África que eu não via

                    A Ungulani Ba Ka Khosa
                   A Vera Duarte,

África que não vejo
se estou mentindo, me diga,
está ali,
a sete passos da verdade inventada por outrem,
e aceita passivamente por mim.
como estou a aproximadamente sete mil quilômetros
da origem desta invenção,
como estou a menos de um passo dessa farsa,
como sou este passo,
tudo que digam, e dizem,
não replico, duplico, porque parece verdade.
mas ela está logo ali,
a dez passos daqui,
e está também aqui,
sem medida de distância,
apenas de profundidade.
África que não vejo,
não me diga,
pois sei que estive mentindo.
África que não via,
está viva,
bem aqui.

inventário ligeiro das coisas que sei

sei que não se pode ser infalível; e, agorinha,
mais do que eu sei
que eu sei,
eu não sei mais o que sei.

em busca da ordem

o vazio no meu atelier;
confusão no museu do fragmento;
muita desordem para as peças ordinárias;
(só são organizadas as extraordinárias)
diversas lacunas no arquivo total:
quase a ordem diária para este caos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

oitenta

recusar os 80 como trilha
significa não mais ligar o rádio,
prosseguir em silêncio
esquecer a canção memorizada,
numa vida chata, porém nova.
significa recusar the big party porque
não há festa,
não há dança,
não há sonho.
a festa, a dança, o sonho,
presentes no corpo,
ficaram no tempo.
agora o que resta?
resta-me somente esta a experiência
de reaver
o irrecuperável.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

inventário ligeiro das coisas que sei

sei que má sorte é condicionar um projeto a qualquer dessas três sortes:
de tê-lo como idealizado;
de que seja exequível;
e à sorte que o mundo possui  de que seu idealizador tenha nascido.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

pequena física das coisas:

O ponto final é um felino,
mais que um gato de Schrödinger,
que está simultaneamente vivo e morto;
porque quando se abre a caixa
- olha para o texto-,
é possível vê-lo vivo ou morto,
a depender do leitor;
que poderá, simultaneamente,
percebê-lo numa mescla de vivo e morto.

hipóteses para significados

(re)início: instante em que a definição parece querer se completar,
e logo reinicia-se.

re(início): instante em que o início parece querer se definir
                                                                                [de vez,
e logo começa
outra vez.

Nem uma coisa, nem outra

A literatura não é uma droga que aliena, que não permitiria com que os leitores possam fazer suas interpretações, mas ela também não é, por si só, libertária [pois nem tudo convém]. A busca de significado, da interpretação pode ser vista como uma luta entre interesses [de tudo que é envolvido] e o desinteresse [que por hora é total]. 
E é este o campo de ação da educação: ferrenha luta entre ato e potência, tendo como juiz, o mediador, (mas será?)
o tal do professor.

sábado, 27 de julho de 2013

das minhas coleções


Desde muito cedo que mantenho e alimento minhas coleções. Minha alma colecionadora re-classifica, re-organiza, re-aloca diversos objetos e coisas. Por hora, mantenho um pequeno inventário destes objetos cujo guardar começara com a primeira moeda - cien soles de oro - e termina agora,
nesses cien soles de oro.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Inventário do Sr. José

uma garrafa mijona;
peças em conjunto, de um puxavante,
 rebolo e pedra;
relíquia de pau-d'óleo;
uma mandinga compreendendo
       hóstia consagrada, guizo de cascavel, falanginha de anjo;
paninho verde de damasco;
vara e meia de fitilho para chave;
1 encadernado em cordovão preto,
  sem título;
algumas folhas pautadas, soltas
 amarelecidas;
vidraria de óleo para defunto inocente;
tesoura de cortar fita, etc.

fragmento de laudatório

[...] que desempenhou segundo a sua exempladíssima e bem conhecida virtude.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

fragmentos do regimento

Se os bois são corridos por paramentos de capinhas de pé; 
não será permitido estar de mangas de camisa,
[...] são esperados o asseio e parafernálias de especiosa vista.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

pra rua nua
ave-te
ave-
nida,
ninho-
limpeza
da
sorte
de
cada
natureza;
ave



plastiquifica-se
gaseifica-se
evita
nida-
ação
desta
natureza.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

fragmentos de um inventário

[...] huma matraqua desarilho, 
huma caldeyra com seo tzope de latam,
huma estante torneada, e de moscovia de coro. 
[...] de agoa de maos; hum candieyro das trevas.